Permissão pro amor

Resolvi parar um pouco para dissertar sobre o amor. Amor? Sim, por que não? Há coisa melhor? Esse sentimento tem algo de engraçado se o levarmos à uma proporção maior que o egoísmo de nossos corações. Não raras vezes, ele acontece em conjunto. É como amigas que menstruam na mesma data. Quando ele aparece - ou some - de um jeito ou de outro, todos sentem. Estamos numa fase de paixões e rupturas. Mas há pouco, amargávamos a inércia... Os casais que estavam juntos assim permaneciam, os solteiros nada arrumavam e quem entrava em nossas vidas, nada dizia. E eis que o mundo sacode. Alguma coisa fica fora de ordem (ou finalmente se encaixa?), e a vida de todos dá uma balançada.
E nesse turbilhão de emoções, nos encontramos. As festas de início de ano, o calor do verão carioca, o peito inquieto que não nos deixa dormir cedo, nos leva às ruas. As sensações que tão bem conhecemos nos enganam, e aparecem como se o fizessem pela primeira vez. E nós acreditamos. E ficamos perdidos. E assim, desejos, angústias, falta de controle e inseguranças nos levam às mesas de bares. Que não à toa, funcionam tão bem quanto um divã de analista.
E neste cenário tenho ouvido muitas histórias, inéditas e repetidas, surpreendentes e cansativas. Que refletem a vivência de cada um dos personagens e enrique o repertório de quem as ouve. Divagando sobre tais desabafos, incluindo os meus - que tanto falo e já não suporto mais ouvir - tirei algumas conclusões...
Como é bom, por mais duvidoso e angustiante que possa ser, passarmos por tais respectivas situações. Somos bravas, guerreiras e independentes. Na profissão, nas relações familiares e com os amigos, somos movidas pelo amor. E este, para todas, estava justamente faltando onde tão importe é: na vida amorosa. Finalmente, ele apareceu para nós. E se despediu de outros.
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O cenário era o tradicional palco de nossas discussões, as cabeças já estavam tomadas de cervejas. E, claro, a pauta era a mesma há horas. João largou Patrícia. André terminou com Joana. Paulo trocou a Vivian por outra. Junto a nós, uma jornalista atípica, dessas tímidas e quietas, que pouco bebem e nada se abrem. Ao fim da conversa, a despedida. Ao chegar em casa, um email coletivo: "E esse é o maior dos sofrimentos: não ter por quem sentir saudades, passar pela vida e não viver. O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido...". Essa frase, fragmento de um poema do Pablo Neruda, resume tudo.
O email veio da amiga atípica. Que, apesar de calada, nunca chorou a dor do amor em silêncio. Nem tampouco deu um escândalo. Jamais viu a vida sem cor. Menos ainda colorida. Nem uma vezinha sequer perdeu o chão ou achou que o mundo pudesse acabar antes que aquelas lágrimas cessassem. Não, ela nunca andou nas nuvens. Acha que é papo de livro. Nó na garganta, coração apertado, medo da perda, dor da saudade. Sensações que assustam e, claro, não fazem bem. Mas o que seríamos sem elas? Quão bom é sentí-las e superá-las ao primeiro toque do telefone que anuncia o nome dele? Ou mesmo, enterrá-las com o fim da relação. Que machuca, mas não mata.
O que nos mata é não viver, não sofrer, não se dispor a morrer por amor. Porque temer, abdicar ou fugir disso, é sim, a morte. Ou pior, um suicídio homeopático. Diário.
Mas não basta encararmos a vida e nos permitirmos viver. Há de se saber como. Porque, se sofrer é bom, ser feliz nem se fala. Ao lado do amado, então, não há descrição.
E vejo cada vez que mais que pensar tem atrapalhado e espantado sorrisos recíprocos. Nos submetemos a interpretações que fogem à nossa alçada. Não vamos nunca saber o que ele quis dizer com "aquele oi num tom diferente", ou no telefonema que foi breve sem te amo na hora dos beijos e tchaus. Porque tudo isso não passa de paranóias da nossa cabeça, que gosta de problemas, dissertações e suposições malucas. Por ora, as deixemos de lado. E vamos ser felizes, ao menos por termos em quem focar, sentir falta, brigar, ligar e amar. Mesmo que em silêncio. Sendo a sorte do amor tranquilo ou vindo já com pacote completo, não importa. Mesmo que o som do carro toque a música dos seus sonhos, ou que ele fuja dos padrões - louca - e previamente estabelicos pos nós. Apesar dos mil pesares e todos os "mas" e "mesmo que", vamos viver e ser muito felizes! E esquecer de pensar...
Autofagia *
"Se o coração pudesse pensar, pararia"
Fernando Pessoa
Se a minha cabeça
parasse
e pensasse um pouquinho
ela parava de pensar
pra sempre
*Postado no blog http://desregularidades.blogspot.com/
