Na estrada

Às vezes me sinto em uma estrada… As luzes e a beleza do fim de tarde emulduram a paisagem. O sol se põe sem pressa, finge não saber das horas, ignora a chegada da noite e exibe seus raios vaidosos.
A primeira estrela não se intimida e aparece radiante, longe de ofuscar a luz do dia que chega ao fim, mas segura, também se impõe.
As nuvens ensaiam, mas diante do espetáculo, optam por não escondê-lo e aproveitam para admirá-lo como poesia enquanto descansam atrás da montanha. O verde está mais verde, o azul anil.
Eu sigo pela estrada, ampla e sem buracos. O asfalto corre liso, desliza, não mostra seu fim. Quer fazer parte disto, quem sabe tornar-se infinito e compor também o cenário ao longo da eterna estrada.
No meio das grandiosidades, caminho. Sou pessoa, sou verdade, mas parece que tenho dentro de mim um motor. Destes bem potentes, de Ferrari de F-1, mas sem aquele – desculpa meninos – incômodo barulho que nos desperta domingo de manhã.
Quem está responsável pelo som são os pássaros, que pulam de galho em galho, cantando avoados. O vento também dá o ar da graça. Quando o calor ameaça ultrapassar a tênue linha entre o prazer e seu oposto, ele dá no gosto e manda a brisa suave, que vem refrescar e jogar meus cabelos para trás.
A Ferrari que sou é turbo e possui combustível suficiente para testar o infinito. Sei de onde vim, mas não faço idéia de para onde estou indo. Caminho sentindo a brisa, o calor, seguindo meus instintos. Mas chega a hora da bendita arrancada. Finjo que não sei de nada e, vagarosamente, ando em passos distantes.
Os pássaros se acalmam, alarde já não mais fazem e silenciam meu trajeto. O sol se despede aos poucos, faz cerimônia, já consciente que é chegada a hora. E prova que é sensato e responsável. Muito mais que eu, que tenho o motor de Ferrari, o infinito à frente, mas em contrapartida minha mente que mente e camufla a hora de arrancar.
Ele se vai de vez, mas a estrada não fica abandonada, ganha a luz da bola, que não rola em gramados, mas passei no universo, muda de fase, tamanho e cor, mas que agora está cheia, impedindo que o escuro traga medo e oculte a paisagem.
Inerte à mudança está a brisa, que mostra independência, provando que falta a mim vivência e coragem, para cumprir com minha missão, partir para arrancada, parando de fingir que não sei de nada.
Sigo no asfalto e, mais uma vez analiso: tenho as possibilidades do infinito, ao meu redor o que há de mais bonito, dentro de mim um motor potente.
Mas permaneço na primeira, quando não, puxo o freio de mão. Admiro tudo à minha volta, mas opto pelo devaneio à realização.

1 Comments:
A coisa mais difícil, pra maioria, é ter a capacidade de desenhar emoções em palavras...
Ao ler esse teus escritos, assim, expelidos de forma visceral e intensa - como sempre foi a Gábi que conheci -, um sorriso enorme me vem aos lábios.
A vida da gente é realmente uma história que pode ser contada no solo da realidade ou nos modernos boeings que confortam nossos sonhos.
Que você continue me extraindo sorrisos, atemporalmente, e fazendo dessa alegria que me vem agora, mais um capítulo desse livro sempre reeditado que sou eu!
Te beijo!
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