quinta-feira, dezembro 11, 2008

Ele*

Ainda a amava. Naqueles dias intermináveis, a vontade era escrever sobre amor. Queria prolongar aquela sensação de outrora recíproca o quão possível fosse. Não podia fazer isso, ela o havia abandonado, ido embora covardemente. Embora alegasse que ele fora avisado (mesmo que em outra língua). Como se estivessem falando de demissão com aviso prévio. De pagar a conta antes da sobremesa. De despedida sem saideira. De deixar a praia antes do sol se por.

Respiraram instintos, viveram entrega, se sentiram únicos, gozaram de uma intimidade digna de muito tempo, tendo acabado de se conhecer. Se amaram no momento em que seus olhos se cruzaram, quando despretensiosamente, ele lhe ofereceu um brinde. À nada, simplesmente aproximou seu drink do dela. Os copos se tocaram e ambos se surpreenderam com o calor que lhes tomou a alma imediatamente. Como se os copos representassem seus corpos.

Sentiram seus cheiros, exalaram desejos e, por susto, ela recuou. Com palavras. Mas, por instinto, puxou seu corpo junto ao dela e se beijaram. Essa história já foi contada. Mas ele a repete, e repete e repete, não acreditando em seu fim. Camuflando sua despedida, buscando qualquer paliativo para alimentar e manter viva sua paixão. Para depositar nela a felicidade, que para ele foi pela primeira vez, "em forma de mulher".

O calor fluminense, os jogos no Maracanã, as beldades bronzeadas cariocas... Ele estava de volta, mas nada mais lhe chamava a atenção. E não sabia se tinha mais raiva dela, pelo que fizera; ou dele, por usar tão bem suas táticas de conquista e dar descarga na já sabida fórmula da não-paixão. Anos e anos de praia, de cidade maravilhosa, de curvas espetaculares, sexos incríveis, performances inatingíveis. E lá estava ele de quatro, como já deixara tantas outras. Por ELA. Que lhe avisara. Que ele, no fundo, não conseguia ter raiva. E que a milhões de quilômetros de distância estava.

A bendita música clássica lhe vinha à cabeça. Os quadros desconhecidos lhe despertavam curiosidade. Era mentira, tudo girava em torno dela e do que pudesse agradá-la. Vagou pela orla sozinho. Passou noites em claro. Semanas sem beber. Amigos ligando, ele nada de atender.

Até que ouviu o som do pandeiro, reparou no choro da cuíca, se emocionou com o som do cavaco. Era carnaval. Fazia calor. Corpos definidos e seminus desfilavam. E ele foi para casa, escrever sobre amor. E virou a noite com as palavras, sentiu cada letra e muito chorou. A alma lavou e, quando o dia ameaçou amanhecer, ainda com lágrimas, colocou sua fantasia. E foi para avenida.

*Por mim, dando (abusadamente) continuidade a um texto que "não pode" ser publicado.

sábado, setembro 13, 2008

Miúdo

Sabe onde mora a certeza do meu amor por você? Nas idiotices. Sim, nas idiotices.
Eu amo cada coisa boba, cada coisa à toa, cada coisa que passa despercebida para um mundo que tanto repara.
Amo cada coisa sua, cada coisa nua, cada coisa muda, que no resto nada causa.
Amo cada detalhe, que por mais que nem repare, tanto me diz.
Amo suas cores, dizer seu nome, sentir teus braços.
E, em cada abraço, noto seus pêlos, esqueço seus erros e me acho perfeita. Por estar ali.

Amo ficar perdida, desnorteada e, ainda assim, não querer um mapa.
Amo como ao teu lado renovo o amor, mesmo depois de tanto dissabor.
Amo ver que são só dificuldades e, apesar dos pesares, quando longe, só sinto saudade.
E como fodam-se as horas, tempos de outrora e o futuro ainda mais. Eu amo nosso presente.

Nossa cama quente, e a sincronia inconsciente de nossos corpos.
Amo dividir meu copo, matar sua sede, saciar todas as minhas necessidades.
Amo te ver contente, mesmo que quase sempre, deixe comigo momentos de baixa.
Amo meu desprendimento de estando longe, saber viver.
E, ainda assim, quando vejo sua imagem; quando me diz bobagem, só sei com tamanha intensidade, te querer.

Amo a maneira de me imitar. E sua mania de comparação.
Amo sua aversão às toalhas, suas bocas e caras
Sua percepção da língua portuguesa e observação das minhas falas.


Amo teu sorriso espontâneo, como naquela foto que estamos felizes.
Amo teu desejo simples, necessidade física e a cobrança por eu ter na minha vida, diretrizes.
Amo sua contradição que espera de mim o que quer e precisa de você.
Amo o quanto me inspira, excita e instiga, tumultua e, por ora, desestimula.
Amo querer te escrever, mesmo que, por essa recíproca, tenha sempre que mendigar.

E sempre tentar melhorar e continuar a acreditar que um dia vai dar certo. Nosso amor.
Torto e disperso, preguiçoso e lúdico.Verdadeiro.
Amo porque nada disso pode ser mensurável.
E, em meio às suas tantas infundadas desconfianças, esta pode ser mais uma brincadeira minha, digna de jardim de infância.
Amo quase a culpa por ser mais nova.

Amo o amor que sinto, que quase me faz acreditar em tudo isso.

terça-feira, junho 10, 2008

Um caso de amor tricolor

O acaso ditou a noite. O destino os aproximou. Era dezembro de altas temperaturas, céu claro e lua fina. Pelas esquinas cariocas, os copos estavam cheios e os hormônios andavam inquietos. Não se conheciam, mas já tinham muito em comum: a profissão, a boemia, a intensidade, a alma insaciável e a paixão futebolística por tricolores distintos.

Choro e alegria fazia parte da vida desses dois torcedores, totalmente devotos do esporte bretão. Freqüentavam estádio, liam tudo sobre o assunto, trabalhavam com o tema e, se pudessem, respirariam, comeriam e beberiam da modalidade que Charles Miller nos trouxe.

A incerteza do ano que começaria, o carnaval anunciado mais cedo e o espírito já descompromissado com 2007, fizeram com que ambos vivessem dias leves, cujas preocupações se resumiam em onde saciar a próxima sede, que amigos encontrar ou com quais jogadores para a temporada seguinte sonhar. Os campeonatos estavam encerrados, mas não tiravam férias de seus clubes.

Saíram naquela noite para o mesmo lugar, com pessoas em comum, mas não se perceberam. O show estava chegando ao fim, e não faziam idéia que a noite estava só começando.

Finalmente, trocaram olhares. Ela se aproximou e, num gesto espontâneo, encostou delicadamente sua cerveja - já não mais tão gelada, na dele. “Tin tin”. Começaram a conversar e o papo não mais cessou. Amigos não demoraram a aparecer e, tardiamente, apresentá-los. “Já nos conhecemos”. Sim, e muito mais que podiam imaginar.

Nos já eternizados instantes que estavam juntos sentiram aquela descarga elétrica lhes tomar o corpo, sensação que somente os corações vagabundos são capazes de causar, só quem sabe a paixão vive, somente quem não respira regras e domínios, sente.

Os olhos estavam íntimos, passeavam um pelo outro em admiração. Gozavam de uma cumplicidade instantânea e sabiam-se recíprocos. Sem desconfiar do universo paralelo em que habitavam, conhecidos se aproximaram propondo a saidera. Responderam juntos, sem hesitar: “Vamos para qualquer lugar’.

Não importaria se dia ou noite, se pizza ou porção, se chope ou vinho, se aqui ou ali. Apenas se queriam perto, desejavam que não acabasse nunca mais aquele brilho de quem se encanta, o arrepiar dos pelos, o sufocamento que vai até o estômago sentir frio, a sensibilidade do tato. A qualquer toque ou esbarrão eram tomados de um torpor indescritível. E queriam mais e mais de tudo isso e mais além.

Seguiram à Guanabara. Juntos no banco de trás, fazendo de suas coxas quase uma, tamanha vontade com que se encostavam. Chegaram. À frente, um amigo do grupo pediu mesa para quinze. Num ato impensado, ela o puxou para o canto da varanda, necessitava se entorpecer entre tragos e goles, respirar o sereno, sentir a noite lhe embebedar, perder o que lhe restava dos sentidos, saber sobre ele o que pouco importaria, afinal, nada mudaria o rumo e a certeza de tê-lo por inteiro.

“O clima está tão agradável, vamos sentar aqui fora”. Ele a olhava deslumbrado, pronto para lhe dizer qualquer sim. Faria qualquer coisa para aquela menina que lhe oferecera num brinde tudo o que ele queria - e não sabia nem esperava. Estava recém separado, não procurava pelo amor. Mas foi encontrado. Os olhos verdes que mudam de cor, o sorriso fácil e jeito espontâneo o chamaram e ele já estava viciado.

Puxou a cadeira para que ela se sentasse e se acomodou ao seu lado. Sem receios, deixaram para lá os demais, não queriam mais vozes e outros assuntos. Se bastavam. Estavam a sós nesse mundo.

O ano que se despedia tinha dado a paixão dos dois, muita alegria. O Fluminense espantara de vez a queda para as segundas e terceiras divisões. O São Paulo nem tomou conhecimento da possível crise gerada pós-eliminação da Libertados. Cada um ganhara seu título nacional, eram donos do país do futebol. O tricolor das Laranjeiras (“Único tricolor, o oficial” dizia a ela.), conquistara a Copa do Brasil; o time do Morumbi se consagrara como primeira equipe a vencer cinco vezes o Campeonato Brasileiro. Se encontrariam certamente pela América.

Falaram sobre futebol, sobre sexo, trabalho, lazer, férias, viagens, amigos, fofocas, celebridades, intrigas, vida. Ele contou sobre o casamento de sete anos terminado há pouco, a filha que esta relação lhe deu, as dificuldades e mazelas da realidade burocrática e emocional que tinha de enfrentar. Ela resumiu sua chegada ao Rio, contou-lhe quão prazeroso e dolorido era viver a 500 Km de sua família, do clube do coração e de amigos queridos.

A madrugada já havia se anunciado há tempos, mas para eles tanto fazia. Os companheiros esquecidos vieram se despedir, mas passaram despercebidos, nada desviaria a atenção que davam um ao outro. Ainda ficaram mais chopes, mais cigarros, mais abraços, até que se beijaram. Chegara a hora de ir embora.

Ela pediu a conta tantas e tantas vezes. O garçon mal humorado não a trazia. Já no estado que gostaria de ficar quando chegou, propôs com cara de menina levada que há horas já articulava aprontar alguma: “Vamos partir sem pagar”. Que nem crianças, os dois saíram bar afora, rindo dos postes e calçadas, inatingíveis, invisíveis, levitando.

Não queriam dizer tchau, não poderia terminar assim, não queriam saber se poderia ou não ter mais amanhã. Queriam o hoje. Agora. Caminharam pela orla carioca e acabaram num quarto de motel. Ela não toparia normalmente, mas estava com ele e nada parecia mais normal. E assim, começou a se despir enquanto contava uma história. E o fazia numa naturalidade que ele nunca vira antes. Tirava toda sua roupa enquanto falava, como se o fizesse há anos na frente dele, como se curtissem a intimidade de um casal antigo. Nua, caminhou até o frigobar, pegou uma cerveja e continuou o causo que contava, já prestes a acabar. Ele olhava fixamente para ela, admirando seu jeito, seu corpo, seus belos seios. Não ouvia, apesar da atenção que prestava.

Passou a mão em seus longos cabelos negros, deslizou pelo seu braço, a envolveu no seu corpo. Pequena, coube inteira ali. Faziam amor enquanto se tocavam. Confundiram seus cheiros, misturaram seus beijos, trocaram suores. Experimentaram novos gostos, chegaram a lugares desconhecidos, se percorreram por inteiro.

Foi uma noite de lances incríveis e belos gols. Mas, como todo jogo, veio a hora do apito final. Ela levantou assustada, olhou o relógio e viu quão atrasada estava. Procurou sua calcinha e a achou no chão, rasgada. Colocou seu vestido e foi trabalhar. Disse adeus e partiu.

Chegou no trabalho com a roupa do dia anterior, exalando alegria, cheiro de sexo e amor. Sem calcinha. Sem disfarces. Encontraram-se ao fim deste dia. Do seguinte. E dos outros que viriam. Ela viajou no Reveillon e ele foi para a pré temporada do seu tricolor.

Voltaram às terras fluminenses e, assim, começou o campeonato paulista e carioca, o ano e o namoro.

terça-feira, março 04, 2008

Permissão pro amor


Resolvi parar um pouco para dissertar sobre o amor. Amor? Sim, por que não? Há coisa melhor? Esse sentimento tem algo de engraçado se o levarmos à uma proporção maior que o egoísmo de nossos corações. Não raras vezes, ele acontece em conjunto. É como amigas que menstruam na mesma data. Quando ele aparece - ou some - de um jeito ou de outro, todos sentem. Estamos numa fase de paixões e rupturas. Mas há pouco, amargávamos a inércia... Os casais que estavam juntos assim permaneciam, os solteiros nada arrumavam e quem entrava em nossas vidas, nada dizia. E eis que o mundo sacode. Alguma coisa fica fora de ordem (ou finalmente se encaixa?), e a vida de todos dá uma balançada.

E nesse turbilhão de emoções, nos encontramos. As festas de início de ano, o calor do verão carioca, o peito inquieto que não nos deixa dormir cedo, nos leva às ruas. As sensações que tão bem conhecemos nos enganam, e aparecem como se o fizessem pela primeira vez. E nós acreditamos. E ficamos perdidos. E assim, desejos, angústias, falta de controle e inseguranças nos levam às mesas de bares. Que não à toa, funcionam tão bem quanto um divã de analista.

E neste cenário tenho ouvido muitas histórias, inéditas e repetidas, surpreendentes e cansativas. Que refletem a vivência de cada um dos personagens e enrique o repertório de quem as ouve. Divagando sobre tais desabafos, incluindo os meus - que tanto falo e já não suporto mais ouvir - tirei algumas conclusões...

Como é bom, por mais duvidoso e angustiante que possa ser, passarmos por tais respectivas situações. Somos bravas, guerreiras e independentes. Na profissão, nas relações familiares e com os amigos, somos movidas pelo amor. E este, para todas, estava justamente faltando onde tão importe é: na vida amorosa. Finalmente, ele apareceu para nós. E se despediu de outros.

***

O cenário era o tradicional palco de nossas discussões, as cabeças já estavam tomadas de cervejas. E, claro, a pauta era a mesma há horas. João largou Patrícia. André terminou com Joana. Paulo trocou a Vivian por outra. Junto a nós, uma jornalista atípica, dessas tímidas e quietas, que pouco bebem e nada se abrem. Ao fim da conversa, a despedida. Ao chegar em casa, um email coletivo: "E esse é o maior dos sofrimentos: não ter por quem sentir saudades, passar pela vida e não viver. O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido...". Essa frase, fragmento de um poema do Pablo Neruda, resume tudo.

O email veio da amiga atípica. Que, apesar de calada, nunca chorou a dor do amor em silêncio. Nem tampouco deu um escândalo. Jamais viu a vida sem cor. Menos ainda colorida. Nem uma vezinha sequer perdeu o chão ou achou que o mundo pudesse acabar antes que aquelas lágrimas cessassem. Não, ela nunca andou nas nuvens. Acha que é papo de livro. Nó na garganta, coração apertado, medo da perda, dor da saudade. Sensações que assustam e, claro, não fazem bem. Mas o que seríamos sem elas? Quão bom é sentí-las e superá-las ao primeiro toque do telefone que anuncia o nome dele? Ou mesmo, enterrá-las com o fim da relação. Que machuca, mas não mata.

O que nos mata é não viver, não sofrer, não se dispor a morrer por amor. Porque temer, abdicar ou fugir disso, é sim, a morte. Ou pior, um suicídio homeopático. Diário.

Mas não basta encararmos a vida e nos permitirmos viver. Há de se saber como. Porque, se sofrer é bom, ser feliz nem se fala. Ao lado do amado, então, não há descrição.

E vejo cada vez que mais que pensar tem atrapalhado e espantado sorrisos recíprocos. Nos submetemos a interpretações que fogem à nossa alçada. Não vamos nunca saber o que ele quis dizer com "aquele oi num tom diferente", ou no telefonema que foi breve sem te amo na hora dos beijos e tchaus. Porque tudo isso não passa de paranóias da nossa cabeça, que gosta de problemas, dissertações e suposições malucas.

Por ora, as deixemos de lado. E vamos ser felizes, ao menos por termos em quem focar, sentir falta, brigar, ligar e amar. Mesmo que em silêncio. Sendo a sorte do amor tranquilo ou vindo já com pacote completo, não importa. Mesmo que o som do carro toque a música dos seus sonhos, ou que ele fuja dos padrões - louca - e previamente estabelicos pos nós. Apesar dos mil pesares e todos os "mas" e "mesmo que", vamos viver e ser muito felizes! E esquecer de pensar...

Autofagia *
"Se o coração pudesse pensar, pararia"
Fernando Pessoa

Se a minha cabeça
parasse
e pensasse um pouquinho
ela parava de pensar
pra sempre

*Postado no blog http://desregularidades.blogspot.com/

terça-feira, abril 10, 2007

História da dona Rita

Dona Rita é nascida e criada em uma pequena praia do litoral sul do Rio de Janeiro, da qual se tem acesso via barco ou trilha. Dona Rita tem no currículo 94 anos de praia do Sono, muito sol na cabeça e calos nas mãos; rugas que mostram o passado, mas não revelam sua idade; seis filhos e oito netos. Em sua casa são servidos deliciosos pratos acompanhados de uma cervejinha gelada. Um rústico camping foi montado em seu terreno. Bromélias, galinhas, cachorros nativos, gatos selvagens e árvores que abraçam com suas sombras, dividem espaço com algumas barracas.

Dona Rita tem amor pela vida, apesar dos dissabores que o destino lhe reservou. Com olheiras e olhar profundo, revela que acredita no primeiro e único amor. Se acha privilegiada por ter tido e, intensamente, vivido o seu. Embora sua história mão tenha o final feliz dos contos de fada.

- Aprendi com meu véio, que adorava viver, a gostar da vida mesmo quando ela tá cheia de problemas – revela.

Dona Rita conheceu seu Aristides ainda menina-moça.

- Mas não foi nada arranjado não, foi amor de verdade – garante sorrindo.

Casaram-se e tiveram seus filhos. Todos nascidos na praia do Sono. Augusto César, o mais velho, mora fora. Jorge administra o camping e o caçula Anísio é barqueiro do luxuoso condomínio das Laranjeiras. Osíris, o barqueiro, é cheio de histórias de pescador, sua isca já fisgou peixes maiores que a vã imaginação pode fabricar. Anísio já enfrentou mares que nem Hollywood saberia reproduzir. Duvida de Osíris? Se sim, o faça enfaticamente, de forma desafiadora. Anísio diz, Osíris prova. Afinal, Osíris ou Anísio, dona Rita?

- O nome dele é Osíris desde que minha regra não veio e eu tinha certeza que no lugar dela viria um menino. O parto foi complicado... Culpa daquela parteira! Então meu marido foi ao cartório sozinho e registrou o Osíris como Anísio. O povoado e todo resto da família chama ele de Anísio. Mas eu não. Para mim ele é meu filho Osíris, desde que minha regra atrasou...

Apesar da divergência em relação ao nome, dona Rita e seu Aristides sempre foram muito felizes. Tiveram “de namorico, mas sem beijo, noivado e casamento 59 anos”.

- Ia chegar até a sessenta, setenta e até oitenta, não fosse a tragédia.

Há 19 anos dona Rita não sai da praia do Sono. E se tem algum arrependimento na vida, é ter deixado a pátria amada, mesmo que a passeio. Acredita que pertencemos a terra que nascemos e que é nela que devemos morrer.

Augusto César pensava diferente. O primogênito, único a ir na contramão da vida nativa pregada pela mãe, resolveu ganhar o mundo.

- Já era macho criado. Queria que ele fosse não. Mas se vai, leva junto minha benção.

Augusto César casou-se com uma moça da cidade grande, morou em diversas capitais e, depois de muitas viagens, resolveu oficializar sua união com uma grande festa, na casa de veraneio do sogro, na praia de Guaratinguetá, litoral norte de São Paulo.

Os preparativos rolavam soltos no casarão, enquanto na praia do Sono a família festejava. Foi uma semana de peixadas e cachaças. As meninas experimentavam seus vestidos e punham-se a desfilar, seguidas pelas suas mães, que distribuíam broncas preocupadas com a roupa cara.

Todos iriam sábado pela manhã, dormiriam no casarão da festa e retornariam às suas vidas no domingo.

- Nunca gostei de sair daqui não, mas quando tinha alguma coisa eu ia. Ms pousar em casa de gente da cidade, aí não. Eu gosto é da minha vidinha aqui, da minha simplicidade, sabe?

Seu Aristide concordava com dona Rita e também não tinha planos de dormir fora de casa. Decidiram então que iriam de barco, assistiriam à cerimônia e voltariam logo após.

O céu estava claro e limpo, muitas estrelas e uma lua cheia iluminada testemunharam a grande festa. No gramado do casarão, o sim foi recíproco e as alianças foram trocadas.

Conforme combinado, o casal nativo da praia do Sono começou a levantar acampamento. Os pais de noiva interviram, a recém casada implorou por suas presenças no almoço dominical. Acabaram cedendo, mas com uma condição: “Pousaríamos no barco”

Já ancorados, dona Rita e seu Aristides conversavam. Ela falava sobre a passagem do tempo e o crescimento dos filhos. Ele contava como o mar estava mudado, se queixava de quão mal o homem fazia à natureza, de como os peixes estavam escassos...

- Ele olhou o céu, o mar e disse: "num falei que o homem só tem feito besteirada... Vê se pode mulher, o homem conseguiu enlouquecer o tempo! Amanhã vai ter mudança brusca, temos que partir logo cedo" - enquanto as lágrimas saltavam aos olhos de dona Rita, as palavras saiam vagarosamente.

Foram se deitar, se despediram com os lábios e dormiram.

Mas o amanhã do seu Aristides veio antes do raiar do sol. Durante a madrugada, um forte trovão o acordou. Ele se levantou, foi até o leme e confirmou sua previsão, embora tenha errado a hora em que se realizaria.

A chuva aumentava conforme o tempo passava. Até virar torrencial. Querendo fazer parte do cenário, o vento apareceu o passou a soprar incessantemente. O raio embelezava o céu. Os trovões assustavam até Netuno.

Já de pé ao lado do marido, dona Rita temia pelo pior. E ele não tardaria a chegar. Seu Aristides tentava, em vão, remover a água que alagava o barco com um pequeno balde. Mas a natureza estava no comando, e não se podia contra ela. Revoltado, o ventou aumentou. Tamanha força e intensidade faziam os pingos da chuva caíam doídos no ombro calejado do velho do mar. O barco virou. Seu Aristides sentiu como nunca o salgado da água. A temperatura era quente, como quando eram crianças e brincavam no raso debaixo da chuva de verão. Em meio à correnteza, se abraçaram.

Uma forte onda os separou, e o velho foi jogado para longe. Antes de se perder no oceano, ouviu o grito de sua amada. Num esforço sobre-humano nadou, remou, bateu pé, tentou de costas, lutou com o mar, seu antigo companheiro, como um bravo guerreiro. Aproximou-se de sua mulher, que já estava perdendo os sentidos. Fez com que os seus se alimentassem da sobrevida que lhe restava e funcionassem a todo vapor. Encheu seus pulmões cansados e mergulhou, tateou o barco virado que tão bem conhecia e voltou à superfície com uma corda.

Seu Aristides amarrou sua amada junto ao barco e se entregou.

No casarão, toda a família, que já tomara providências ao primeiro trovão, iniciava as buscas. Graças ao amor e à bravura de seu veio, dona Rita foi encontrada, junto ao braço virado, com vida. Seu Aristides nunca foi encontrado, nem roupas, nem corpo, nem pertences. O velho se incorporou àquele que o criou.

- Ele sempre foi filho do mar. Salvou minha vida... Ainda tentou se amarrar junto a mim, mas a natureza o levou. E ele, que tanto amava a vida, foi apresentado à morte.

quinta-feira, março 29, 2007

Apanhando dos ponteiros














Há anos encaro batalhas intermináveis numa luta sem fim contra meu relógio biológico. Os ponteiros que o regulam são independentes e muito mais teimosos que eu. Vinte e cinco primaveras depois, finalmente a paz.

Sempre tentei, em vão, organizar meus horários. Perda de tempo. Eles continuam envoltos à zona descriteriosa que sempre estiveram. Trabalhando insanamente ao longo de mais das teóricas 8h/dia, acordando cedo para fotossíntese ou uma corrida, minha última tentativa de dormir cedo foi feita há pouco. E abandonada agora.

Sete da manhã de pé, sono no trabalho, sono no almoço, sono de tarde. Oito da noite a melatonina (hormônio do sono) vem com todas força... Justo na hora que não posso dormir, senão acordo no meio da madrugada. Dez da noite, hora de ir para cama... Pronto: pique total!

Deitei antes da meia noite dias e dias. Rodei para um lado. Mudei para outro. Nada. E o mais curioso que sempre estudei de manhã, tantas vezes levantei com o sol nascendo e meu reloginho nunca se acostumou a dormir cedo. Mas se adaptou perfeitamente às poucas 4h, 5h/noite de cama. Ok relógio biológico....

Aproveite a manhã, trampe durante toda a tarde, caia sempre na night, curta a madrugada chegando. Afinal, dormir para quê?

quarta-feira, fevereiro 28, 2007

Emancipação sexual às avessas

Vejo grande parte da população feminina consciente, ganhando seu próprio dinheiro, bancando suas contas e, se for o caso, de seus dependentes; expondo intimistas, mesmo que graciosamente, suas opiniões. Observo-as discursando enfáticas sobre sexo enquanto prazer separadamente de amor, sobre satisfazer seus corpos e realizar seus desejos. Mas, na hora do “vamo ve”, ficam receosas em transar no primeiro encontro, sonham com véus e grinalda, querem a casa cheia de crianças, cachorros e almoços familiares aos domingos.

Querem sim carinho, respeito, flores, ligação no dia seguinte. Outras vezes podem querer simplesmente uma bela trepada, um sexo gostoso. E que mal ha nisso? Nenhum, a não ser o fato (no primeiro caso) do medo de se assumirem assim, como se fosse uma regressão nos largos passos dados por outras gerações para chegarmos ate aqui. Na segunda opção, se negam talvez por receio de serem mal quistas pelo parceiro (depois do sexo), no caso de uma putaria recíproca.

Essa ambigüidade é retratada no livro de Zuenir Ventura, 1968 – O Ano Que Não Terminou, que descreve (entre outros) a trajetória pioneira desta geração que deu um passo à frente do seu tempo e passou a lutar por direitos iguais. Em uma passagem, a vanguardista revolucionária Heloísa Buarque aconselha uma amiga: “a gente tem que fingir que dá para os caras, mas a gente não tem que dar para os caras”.

Quando o assunto é sexo, dúvidas, moralismos e conflitos ainda imperam. Quantos sins e nãos você já disse baseada em alguma teoria ou tática, ou paranóia social? Quantos nãos foram ditos quando, na verdade, a vontade era arrancar a roupa e, literalmente, cair de boca? E por que não simplesmente fazer o que esta com vontade e bancar a vida no século 21?

Porque os valores mudaram nos discursos, nos olhos do mundo, nas opiniões terceiras, nos programas da GNT, mas ainda não mudaram dentro de si próprias. E se a ressaca moral de terem dito sim - quando em suas cabeças - o certo era dizer não, a culpa de por não terem se dado e proporcionado o prazer, por não terem se liberado (e libertado) para fazer o que de fato queriam, incha a cuca e causa tantos conflitos quanto. Portanto, não queira ser bem resolvida para o vizinho da frente, para o colega do lado, para a amiga careta, para essa hipocresia social. Mas para si própria. Liberte-se. Permita-se permitir. Sempre. Você pode.