Um caso de amor tricolor
O acaso ditou a noite. O destino os aproximou. Era dezembro de altas temperaturas, céu claro e lua fina. Pelas esquinas cariocas, os copos estavam cheios e os hormônios andavam inquietos. Não se conheciam, mas já tinham muito em comum: a profissão, a boemia, a intensidade, a alma insaciável e a paixão futebolística por tricolores distintos.
Choro e alegria fazia parte da vida desses dois torcedores, totalmente devotos do esporte bretão. Freqüentavam estádio, liam tudo sobre o assunto, trabalhavam com o tema e, se pudessem, respirariam, comeriam e beberiam da modalidade que Charles Miller nos trouxe.
A incerteza do ano que começaria, o carnaval anunciado mais cedo e o espírito já descompromissado com 2007, fizeram com que ambos vivessem dias leves, cujas preocupações se resumiam em onde saciar a próxima sede, que amigos encontrar ou com quais jogadores para a temporada seguinte sonhar. Os campeonatos estavam encerrados, mas não tiravam férias de seus clubes.
Saíram naquela noite para o mesmo lugar, com pessoas em comum, mas não se perceberam. O show estava chegando ao fim, e não faziam idéia que a noite estava só começando.
Finalmente, trocaram olhares. Ela se aproximou e, num gesto espontâneo, encostou delicadamente sua cerveja - já não mais tão gelada, na dele. “Tin tin”. Começaram a conversar e o papo não mais cessou. Amigos não demoraram a aparecer e, tardiamente, apresentá-los. “Já nos conhecemos”. Sim, e muito mais que podiam imaginar.
Nos já eternizados instantes que estavam juntos sentiram aquela descarga elétrica lhes tomar o corpo, sensação que somente os corações vagabundos são capazes de causar, só quem sabe a paixão vive, somente quem não respira regras e domínios, sente.
Os olhos estavam íntimos, passeavam um pelo outro em admiração. Gozavam de uma cumplicidade instantânea e sabiam-se recíprocos. Sem desconfiar do universo paralelo em que habitavam, conhecidos se aproximaram propondo a saidera. Responderam juntos, sem hesitar: “Vamos para qualquer lugar’.
Não importaria se dia ou noite, se pizza ou porção, se chope ou vinho, se aqui ou ali. Apenas se queriam perto, desejavam que não acabasse nunca mais aquele brilho de quem se encanta, o arrepiar dos pelos, o sufocamento que vai até o estômago sentir frio, a sensibilidade do tato. A qualquer toque ou esbarrão eram tomados de um torpor indescritível. E queriam mais e mais de tudo isso e mais além.
Seguiram à Guanabara. Juntos no banco de trás, fazendo de suas coxas quase uma, tamanha vontade com que se encostavam. Chegaram. À frente, um amigo do grupo pediu mesa para quinze. Num ato impensado, ela o puxou para o canto da varanda, necessitava se entorpecer entre tragos e goles, respirar o sereno, sentir a noite lhe embebedar, perder o que lhe restava dos sentidos, saber sobre ele o que pouco importaria, afinal, nada mudaria o rumo e a certeza de tê-lo por inteiro.
“O clima está tão agradável, vamos sentar aqui fora”. Ele a olhava deslumbrado, pronto para lhe dizer qualquer sim. Faria qualquer coisa para aquela menina que lhe oferecera num brinde tudo o que ele queria - e não sabia nem esperava. Estava recém separado, não procurava pelo amor. Mas foi encontrado. Os olhos verdes que mudam de cor, o sorriso fácil e jeito espontâneo o chamaram e ele já estava viciado.
Puxou a cadeira para que ela se sentasse e se acomodou ao seu lado. Sem receios, deixaram para lá os demais, não queriam mais vozes e outros assuntos. Se bastavam. Estavam a sós nesse mundo.
O ano que se despedia tinha dado a paixão dos dois, muita alegria. O Fluminense espantara de vez a queda para as segundas e terceiras divisões. O São Paulo nem tomou conhecimento da possível crise gerada pós-eliminação da Libertados. Cada um ganhara seu título nacional, eram donos do país do futebol. O tricolor das Laranjeiras (“Único tricolor, o oficial” dizia a ela.), conquistara a Copa do Brasil; o time do Morumbi se consagrara como primeira equipe a vencer cinco vezes o Campeonato Brasileiro. Se encontrariam certamente pela América.
Falaram sobre futebol, sobre sexo, trabalho, lazer, férias, viagens, amigos, fofocas, celebridades, intrigas, vida. Ele contou sobre o casamento de sete anos terminado há pouco, a filha que esta relação lhe deu, as dificuldades e mazelas da realidade burocrática e emocional que tinha de enfrentar. Ela resumiu sua chegada ao Rio, contou-lhe quão prazeroso e dolorido era viver a 500 Km de sua família, do clube do coração e de amigos queridos.
A madrugada já havia se anunciado há tempos, mas para eles tanto fazia. Os companheiros esquecidos vieram se despedir, mas passaram despercebidos, nada desviaria a atenção que davam um ao outro. Ainda ficaram mais chopes, mais cigarros, mais abraços, até que se beijaram. Chegara a hora de ir embora.
Ela pediu a conta tantas e tantas vezes. O garçon mal humorado não a trazia. Já no estado que gostaria de ficar quando chegou, propôs com cara de menina levada que há horas já articulava aprontar alguma: “Vamos partir sem pagar”. Que nem crianças, os dois saíram bar afora, rindo dos postes e calçadas, inatingíveis, invisíveis, levitando.
Não queriam dizer tchau, não poderia terminar assim, não queriam saber se poderia ou não ter mais amanhã. Queriam o hoje. Agora. Caminharam pela orla carioca e acabaram num quarto de motel. Ela não toparia normalmente, mas estava com ele e nada parecia mais normal. E assim, começou a se despir enquanto contava uma história. E o fazia numa naturalidade que ele nunca vira antes. Tirava toda sua roupa enquanto falava, como se o fizesse há anos na frente dele, como se curtissem a intimidade de um casal antigo. Nua, caminhou até o frigobar, pegou uma cerveja e continuou o causo que contava, já prestes a acabar. Ele olhava fixamente para ela, admirando seu jeito, seu corpo, seus belos seios. Não ouvia, apesar da atenção que prestava.
Passou a mão em seus longos cabelos negros, deslizou pelo seu braço, a envolveu no seu corpo. Pequena, coube inteira ali. Faziam amor enquanto se tocavam. Confundiram seus cheiros, misturaram seus beijos, trocaram suores. Experimentaram novos gostos, chegaram a lugares desconhecidos, se percorreram por inteiro.
Foi uma noite de lances incríveis e belos gols. Mas, como todo jogo, veio a hora do apito final. Ela levantou assustada, olhou o relógio e viu quão atrasada estava. Procurou sua calcinha e a achou no chão, rasgada. Colocou seu vestido e foi trabalhar. Disse adeus e partiu.
Chegou no trabalho com a roupa do dia anterior, exalando alegria, cheiro de sexo e amor. Sem calcinha. Sem disfarces. Encontraram-se ao fim deste dia. Do seguinte. E dos outros que viriam. Ela viajou no Reveillon e ele foi para a pré temporada do seu tricolor.
Voltaram às terras fluminenses e, assim, começou o campeonato paulista e carioca, o ano e o namoro.
Choro e alegria fazia parte da vida desses dois torcedores, totalmente devotos do esporte bretão. Freqüentavam estádio, liam tudo sobre o assunto, trabalhavam com o tema e, se pudessem, respirariam, comeriam e beberiam da modalidade que Charles Miller nos trouxe.
A incerteza do ano que começaria, o carnaval anunciado mais cedo e o espírito já descompromissado com 2007, fizeram com que ambos vivessem dias leves, cujas preocupações se resumiam em onde saciar a próxima sede, que amigos encontrar ou com quais jogadores para a temporada seguinte sonhar. Os campeonatos estavam encerrados, mas não tiravam férias de seus clubes.
Saíram naquela noite para o mesmo lugar, com pessoas em comum, mas não se perceberam. O show estava chegando ao fim, e não faziam idéia que a noite estava só começando.
Finalmente, trocaram olhares. Ela se aproximou e, num gesto espontâneo, encostou delicadamente sua cerveja - já não mais tão gelada, na dele. “Tin tin”. Começaram a conversar e o papo não mais cessou. Amigos não demoraram a aparecer e, tardiamente, apresentá-los. “Já nos conhecemos”. Sim, e muito mais que podiam imaginar.
Nos já eternizados instantes que estavam juntos sentiram aquela descarga elétrica lhes tomar o corpo, sensação que somente os corações vagabundos são capazes de causar, só quem sabe a paixão vive, somente quem não respira regras e domínios, sente.
Os olhos estavam íntimos, passeavam um pelo outro em admiração. Gozavam de uma cumplicidade instantânea e sabiam-se recíprocos. Sem desconfiar do universo paralelo em que habitavam, conhecidos se aproximaram propondo a saidera. Responderam juntos, sem hesitar: “Vamos para qualquer lugar’.
Não importaria se dia ou noite, se pizza ou porção, se chope ou vinho, se aqui ou ali. Apenas se queriam perto, desejavam que não acabasse nunca mais aquele brilho de quem se encanta, o arrepiar dos pelos, o sufocamento que vai até o estômago sentir frio, a sensibilidade do tato. A qualquer toque ou esbarrão eram tomados de um torpor indescritível. E queriam mais e mais de tudo isso e mais além.
Seguiram à Guanabara. Juntos no banco de trás, fazendo de suas coxas quase uma, tamanha vontade com que se encostavam. Chegaram. À frente, um amigo do grupo pediu mesa para quinze. Num ato impensado, ela o puxou para o canto da varanda, necessitava se entorpecer entre tragos e goles, respirar o sereno, sentir a noite lhe embebedar, perder o que lhe restava dos sentidos, saber sobre ele o que pouco importaria, afinal, nada mudaria o rumo e a certeza de tê-lo por inteiro.
“O clima está tão agradável, vamos sentar aqui fora”. Ele a olhava deslumbrado, pronto para lhe dizer qualquer sim. Faria qualquer coisa para aquela menina que lhe oferecera num brinde tudo o que ele queria - e não sabia nem esperava. Estava recém separado, não procurava pelo amor. Mas foi encontrado. Os olhos verdes que mudam de cor, o sorriso fácil e jeito espontâneo o chamaram e ele já estava viciado.
Puxou a cadeira para que ela se sentasse e se acomodou ao seu lado. Sem receios, deixaram para lá os demais, não queriam mais vozes e outros assuntos. Se bastavam. Estavam a sós nesse mundo.
O ano que se despedia tinha dado a paixão dos dois, muita alegria. O Fluminense espantara de vez a queda para as segundas e terceiras divisões. O São Paulo nem tomou conhecimento da possível crise gerada pós-eliminação da Libertados. Cada um ganhara seu título nacional, eram donos do país do futebol. O tricolor das Laranjeiras (“Único tricolor, o oficial” dizia a ela.), conquistara a Copa do Brasil; o time do Morumbi se consagrara como primeira equipe a vencer cinco vezes o Campeonato Brasileiro. Se encontrariam certamente pela América.
Falaram sobre futebol, sobre sexo, trabalho, lazer, férias, viagens, amigos, fofocas, celebridades, intrigas, vida. Ele contou sobre o casamento de sete anos terminado há pouco, a filha que esta relação lhe deu, as dificuldades e mazelas da realidade burocrática e emocional que tinha de enfrentar. Ela resumiu sua chegada ao Rio, contou-lhe quão prazeroso e dolorido era viver a 500 Km de sua família, do clube do coração e de amigos queridos.
A madrugada já havia se anunciado há tempos, mas para eles tanto fazia. Os companheiros esquecidos vieram se despedir, mas passaram despercebidos, nada desviaria a atenção que davam um ao outro. Ainda ficaram mais chopes, mais cigarros, mais abraços, até que se beijaram. Chegara a hora de ir embora.
Ela pediu a conta tantas e tantas vezes. O garçon mal humorado não a trazia. Já no estado que gostaria de ficar quando chegou, propôs com cara de menina levada que há horas já articulava aprontar alguma: “Vamos partir sem pagar”. Que nem crianças, os dois saíram bar afora, rindo dos postes e calçadas, inatingíveis, invisíveis, levitando.
Não queriam dizer tchau, não poderia terminar assim, não queriam saber se poderia ou não ter mais amanhã. Queriam o hoje. Agora. Caminharam pela orla carioca e acabaram num quarto de motel. Ela não toparia normalmente, mas estava com ele e nada parecia mais normal. E assim, começou a se despir enquanto contava uma história. E o fazia numa naturalidade que ele nunca vira antes. Tirava toda sua roupa enquanto falava, como se o fizesse há anos na frente dele, como se curtissem a intimidade de um casal antigo. Nua, caminhou até o frigobar, pegou uma cerveja e continuou o causo que contava, já prestes a acabar. Ele olhava fixamente para ela, admirando seu jeito, seu corpo, seus belos seios. Não ouvia, apesar da atenção que prestava.
Passou a mão em seus longos cabelos negros, deslizou pelo seu braço, a envolveu no seu corpo. Pequena, coube inteira ali. Faziam amor enquanto se tocavam. Confundiram seus cheiros, misturaram seus beijos, trocaram suores. Experimentaram novos gostos, chegaram a lugares desconhecidos, se percorreram por inteiro.
Foi uma noite de lances incríveis e belos gols. Mas, como todo jogo, veio a hora do apito final. Ela levantou assustada, olhou o relógio e viu quão atrasada estava. Procurou sua calcinha e a achou no chão, rasgada. Colocou seu vestido e foi trabalhar. Disse adeus e partiu.
Chegou no trabalho com a roupa do dia anterior, exalando alegria, cheiro de sexo e amor. Sem calcinha. Sem disfarces. Encontraram-se ao fim deste dia. Do seguinte. E dos outros que viriam. Ela viajou no Reveillon e ele foi para a pré temporada do seu tricolor.
Voltaram às terras fluminenses e, assim, começou o campeonato paulista e carioca, o ano e o namoro.
