Permissão pro amor

Resolvi parar um pouco para dissertar sobre o amor. Amor? Sim, por que não? Há coisa melhor? Esse sentimento tem algo de engraçado se o levarmos à uma proporção maior que o egoísmo de nossos corações. Não raras vezes, ele acontece em conjunto. É como amigas que menstruam na mesma data. Quando ele aparece - ou some - de um jeito ou de outro, todos sentem. Estamos numa fase de paixões e rupturas. Mas há pouco, amargávamos a inércia... Os casais que estavam juntos assim permaneciam, os solteiros nada arrumavam e quem entrava em nossas vidas, nada dizia. E eis que o mundo sacode. Alguma coisa fica fora de ordem (ou finalmente se encaixa?), e a vida de todos dá uma balançada.
E nesse turbilhão de emoções, nos encontramos. As festas de início de ano, o calor do verão carioca, o peito inquieto que não nos deixa dormir cedo, nos leva às ruas. As sensações que tão bem conhecemos nos enganam, e aparecem como se o fizessem pela primeira vez. E nós acreditamos. E ficamos perdidos. E assim, desejos, angústias, falta de controle e inseguranças nos levam às mesas de bares. Que não à toa, funcionam tão bem quanto um divã de analista.
E neste cenário tenho ouvido muitas histórias, inéditas e repetidas, surpreendentes e cansativas. Que refletem a vivência de cada um dos personagens e enrique o repertório de quem as ouve. Divagando sobre tais desabafos, incluindo os meus - que tanto falo e já não suporto mais ouvir - tirei algumas conclusões...
Como é bom, por mais duvidoso e angustiante que possa ser, passarmos por tais respectivas situações. Somos bravas, guerreiras e independentes. Na profissão, nas relações familiares e com os amigos, somos movidas pelo amor. E este, para todas, estava justamente faltando onde tão importe é: na vida amorosa. Finalmente, ele apareceu para nós. E se despediu de outros.
***
O cenário era o tradicional palco de nossas discussões, as cabeças já estavam tomadas de cervejas. E, claro, a pauta era a mesma há horas. João largou Patrícia. André terminou com Joana. Paulo trocou a Vivian por outra. Junto a nós, uma jornalista atípica, dessas tímidas e quietas, que pouco bebem e nada se abrem. Ao fim da conversa, a despedida. Ao chegar em casa, um email coletivo: "E esse é o maior dos sofrimentos: não ter por quem sentir saudades, passar pela vida e não viver. O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido...". Essa frase, fragmento de um poema do Pablo Neruda, resume tudo.
O email veio da amiga atípica. Que, apesar de calada, nunca chorou a dor do amor em silêncio. Nem tampouco deu um escândalo. Jamais viu a vida sem cor. Menos ainda colorida. Nem uma vezinha sequer perdeu o chão ou achou que o mundo pudesse acabar antes que aquelas lágrimas cessassem. Não, ela nunca andou nas nuvens. Acha que é papo de livro. Nó na garganta, coração apertado, medo da perda, dor da saudade. Sensações que assustam e, claro, não fazem bem. Mas o que seríamos sem elas? Quão bom é sentí-las e superá-las ao primeiro toque do telefone que anuncia o nome dele? Ou mesmo, enterrá-las com o fim da relação. Que machuca, mas não mata.
O que nos mata é não viver, não sofrer, não se dispor a morrer por amor. Porque temer, abdicar ou fugir disso, é sim, a morte. Ou pior, um suicídio homeopático. Diário.
Mas não basta encararmos a vida e nos permitirmos viver. Há de se saber como. Porque, se sofrer é bom, ser feliz nem se fala. Ao lado do amado, então, não há descrição.
E vejo cada vez que mais que pensar tem atrapalhado e espantado sorrisos recíprocos. Nos submetemos a interpretações que fogem à nossa alçada. Não vamos nunca saber o que ele quis dizer com "aquele oi num tom diferente", ou no telefonema que foi breve sem te amo na hora dos beijos e tchaus. Porque tudo isso não passa de paranóias da nossa cabeça, que gosta de problemas, dissertações e suposições malucas. Por ora, as deixemos de lado. E vamos ser felizes, ao menos por termos em quem focar, sentir falta, brigar, ligar e amar. Mesmo que em silêncio. Sendo a sorte do amor tranquilo ou vindo já com pacote completo, não importa. Mesmo que o som do carro toque a música dos seus sonhos, ou que ele fuja dos padrões - louca - e previamente estabelicos pos nós. Apesar dos mil pesares e todos os "mas" e "mesmo que", vamos viver e ser muito felizes! E esquecer de pensar...
Autofagia *
"Se o coração pudesse pensar, pararia"
Fernando Pessoa
Se a minha cabeça
parasse
e pensasse um pouquinho
ela parava de pensar
pra sempre
*Postado no blog http://desregularidades.blogspot.com/

2 Comments:
Este comentário foi removido pelo autor.
Já sentei algumas vezes do mesmo lado que essa jornalista da mesa de bar. Doía não ter o que dizer, não ter de quem reclamar, não ter por quem chorar. Até que um dia eu descobri o amor. E com ele veio a alegria de acordar nos braços de quem se gosta, de telefonar no meio do dia para ouvir apenas sua voz, de chegar em casa e ter um jantar te esperando ou curtir um simples beijo, que acalmava qualquer angustia maior. Sim, depois conheci o fim. E chorei. Sofri e hoje já estou até cansada de chorar. Se me arrependo? Nunca! Fui inteira antes. Sou inteira agora. Intensa, como diz outra amiga. E sei que nunca mais quero estar daquele lado de lá, pois pior que chorar por um amor perdido é chorar por nunca ter perdido um amor. As vezes me chamam de chorona (e com toda razão), mas sei que não sei ser quase, nem meio, nem talves. Como diz essa amiga, pode ser que doa mais, mas com certeza sou mais feliz. E é tudo que desejo a quem gosto. Dos dois lados da mesa.
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