Último Desabafo

Mais uma vez, ela estava triste, nervosa, angustiada, a espera de notícias, de um sinal de vida. Novamente ele, calado, magoado com ela, decepcionado com outros. Deve ser grande demais suas ligaçõs para suportarem tantos dissabores... Brigam mais que se curtem, discutem mais que se amam, se chateam tanto e nunca trocaram presentes, choram sem jamais terem visto o dia amanhecer abraçados. Vivem crises sem reconciliação, desencontros sem volta, brigas sem o prazer do fazer as pazes.
Mas, apesar dos reverses, possuem um diferencial e esse é o grande lance... São eles, que não se entendem juntos e não conseguem viver separados. Eles, que vivem intensamente cada conversa sobre a relação, cada amor em local inapropriado, cada cabulada de aula em nome de cerveja, vivem intensamente toda troca de experiência, todo café compartilhado e, como não podia deixar de ser, todas as brigas. Vivem o ciúme sem terem a posse, vivem a posse sem o título, vivem como namorados sem o melhor que o termo proporciona. Contando, ninguém entenderia. É, são eles.
O instante que ela o viu sentado naquela mesa de buteco, cercado de mulheres, sentiu calafrios e foi tomada por um frio na barriga e uma tremenda tremedeira nas pernas. Trataram-se como colegas, mentiram-se desconhecidos, engoliram a saudade a seco e se embebedam de orgulho.
Mas não podia continuar assim, a cabeça é tantas vezes pequena, mas o coração é sempre grande demais. A saudade era maior que tudo. Quando se deu conta, sua memória aproveitou o fato de ser seletiva e esqueceu dos motivos que tão brava a deixaram, não pensou mais nas suas mulheres, não lembrou de que o título existe agora na sua vida. E não é ela que o faz existir.
São eles, e, como sempre, há uma conspiração esquisita. A mesma que causa a efermidade inesperada, a mesma que os mantém longe quando a vontade é de estar perto. Essa conspiração apareceu nesta noite e quando se deram conta, em meio às tantas pessoas, ávidas por uma carona, desesperadas para chegarem à uma boa balada, conseguiram, sem esforço, nem fugas, nem segundas intenções, entrar no carro e sair à sós.
Ao seu lado, ela sentiu-se segura e teve vontade de não brigar nunca mais, de seguir estrada a fora, de conversar mais e mais e mais e parar somente para abastecer e tocar viagem pra sempre. Ela deseja ir para longe dos seus pensamentos, driblar toda aquela conspiração, ir para algum lugar onde não tivessem passado, onde pudessem se apresentar, se conhecer e finalmente, de fato, se encontrar. Apesar dos desejos e devaneios, na verdade bastava a ela estar ali naquele banco... Onde tão bem se sentia e, contrariando a aversão ao nosso passado, onde era remetida a tantas boas lembranças.
Mas, de repente ela se dá conta que não é do passado que quer fugir. Mas dos seus atos. Ela fez merda, pisou na bola. Isso a estava matando, ela era ciumenta, cobrava dele sinceridade, lealdade, sem ter título ou moral algum. Não, ela não mais podia sustentar, sempre foi fiel aos seus princípios e agora traía, não só ele, mas também seus valores e crenças. Por outro lado, queria não contar, para tê-lo poupado desta dor e poder morrer com ela. Mas não achava justo... Como ocultar isso? Pensava, instantes antes de revelar a ele a verdade. Contou. Nunca saberá se devia ou não ter aberto a boca e soltado o verbo. O fato é que já foi e agora eles têem que lidar com isso.
Temporariamente, não há mais a declarar. Ela o machucara, ele estava com raiva, por ora triste. Ela queria passar dias e dias pedindo perdão, mas sabia que de nada adiantaria. A dor já fazia parte da suas histórias e as pedidos de desculpa não poderiam alterar este curso.

1 Comments:
Vou fazer do silêncio das minhas palavras, uma prece...
* Nunca apague esse texto. Ainda vai servir para muitas almas em conflito, buscando um texto confortante no Google...
Te beijo
( o ombro está aqui... )
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