quinta-feira, outubro 19, 2006

O decote

À minha frente estavam os dois, lado a lado. O timbre da voz e o compasso dos braços deixavam claro o efeito dos chopps curtidos antes da minha chegada. Conversávamos sobre assuntos sérios, supérfluos, jornalismo e muito futebol. A decepção nas urnas paulistanas, a virada baiana, a partida entre Vasco e São Paulo do dia seguinte, o feriado de outubro, eram temas correntes.

Entre goles e tragos e papos diversos, estranhei que a pauta “mulheres” ainda não tivesse vindo à tona. Não perguntaram onde estavam minhas amigas gostosas, não falaram da bunda de ninguém, o assunto estava à margem. Estranho.

Por ora, reparei que estavam prestando atenção demasiada a algo atrás de mim. Seus olhos brilhavam, exalavam suspiros, passeavam distraídos e voltavam disfarçados. Não quis perguntar, quanto mais curiosa fico mais eles me enrolam, por mais besta que seja a resposta, ela não seria dada a mim facilmente. Não achei que fosse nada demais e senti preguiça de começar a brincadeira: conta, não, ah vai, de jeito nenhum, por favor...

Resolvi ir ao banheiro, já estava mesmo em tempo, no caminho eu com certeza acharia o objeto/motivo/fato que tanto os atordoava. Ao me virar dei de cara com uma mesa cheia de mulheres. Cheia não, eram cinco, ou seis. Sim, só isso já bastaria para lhes tomar a atenção, mas havia algo de hipnotizador e não era o conjunto que elas formavam – estavam longe de compor um belo harém, juro!

Badaladas da zero hora já haviam soado há tempos. Estranho, ele não começara a reclama, não dissera que estava tarde, que passava da hora de ir embora, que dia seguinte é dia de branco, nem tampouco do grande problema de sua vida: dormir tarde e acordar cedo. E o mais estranho, ainda bebia, tranquilamente. Normalmente, quando peço mais um chopp após à meia noite ele (que vira abóbora, conforme dito), diz que sou desmedida, me chama de exagerada, irresponsável, se peço dois então, viro a alcoólatra. Além de dissertar sobre minha relação com o meu dinheiro. "Você torra o que recebe, não planeja nada, não guarda, vive como se não fosse acordar amanhã. Não sei como tu se criou até agora" - são as frases corriqueiras.

- Chiquinho, mais um chopp – disse ele, para completar meu espanto, com ar de quem tinha algo a dizer, bastava o primeiro gole.

O chopp chegou, acendi um cigarro, ele o bebeu calmamente e ainda com olhos enfeitiçados disse, como que para si mesmo.

- Meu Deus do céu, que decote!


Decote? Por diversas vezes não ouviam o que eu dizia, não respondiam minhas perguntas, me deixavam curtir a bebida a vontade, não imitaram meu sotaque, estavam ótimos e tudo isso por causa de um mísero decote? Sim, mísero sim!

Não resisti e virei sem disfarces, olhei secamente para aquela mulher, friamente observei seus seios. Eram normais e pra completar usava uma camiseta (decotada), mas com mangas, brancas daquelas com aquele desenho em “u”! Básica! O cabelo não chamava atenção e seu rosto não tinha o menor brio ou qualquer graça.

- Ainda não reparei na cara dela, é bonita? – disse (só pode ter sido para me irritar!) forçando seu sotaque pernambucano.

Não acreditei no que estava acontecendo. De repente, tudo era válido, eles estavam como eu gostaria que fossem, com o riso e a leveza que sonhei conviver, tantas noites, neste mesmo bar, pedi em vão para que eles fossem mais relaxados, que curtissem mais a noite, que não me enchessem tanto o saco e agora eles assim estavam devido ao simples decote?

Eu devia agradecer à ela (ou ao decote dela!). Sim, enquanto os seios da mulher sem graça divertissem meus amigos, tudo era válido.

Lembrei de um texto que um colega postou em seu blog. Era a descrição do chamado “dia de cão”, os acontecimentos estavam tortos, até que uma mulher de vestido lilás decotado entra no ônibus e enche de cor e charme os nebulosos fatos que tanto o irritavam.

Incrível que ponto chega a imaginação masculina! Senti vontade de estudar o cérebro (deles) e ver os mecanismos que são acionados quando a visão detecta algum pedaço do corpo do sexo oposto exposto. O tempo perde importância, seus olhos tomam vida própria, sua mente flui, os assuntos pouco importam e seus “vastos” mundos limitam-se à mágica visão que tanto os inspira. Que naquele momento, era aquela mulher sem graça.

Desempregada, sem hora para acordar, bebendo às custas deles, decidi também tirar minha lasquinha e aproveitar a situação que os deixara tão “bonzinhos”.

- Chiquinho, me da um malboro, mais um chopp e traz o cardápio. A cozinha está aberta ainda, né? Qual sua sugestão do dia?

Me animei, pensei até em estabelecer contato e trazer sempre ao Tasca aquele decote sem graça. Eu já me apetecia com as opções que o Chiquinho ia me sugerindo, "bolinho de bacalhau, pastel de siri e polvo, caldinho de feijão". Abri o cigarro, acendi o primeiro, bebi com prazer meu chopp. Tudo ia bem.

Até que a mulher decotada de rosto sem sal colocou uma blusa de mangas compridas e gola alta. Foi como se as luzes se apagassem, o colorido preto e branco virasse. A música pediu silêncio e o redor perdeu o brilho. O decote que trazia alegria fora embora e, sem ele, a vida voltava ao normal.

- Nossa, ela é bem feinha mesmo, viu? Você tinha razão Gábi – ele disse, decepcionado.

- Parece uma fuinha! E o cabelo? Horrível, ele não deve ver um pente há tempos! – concordou ele.

Soltei o cabelo, que, como nos comercias de xampoo, caíram leves e brilhantes sob meus ombros. Olhei meu decote, puxei a blusa mais pra baixo. Eu estava queimada, a marca aparecia. Eu tinha razão, ela era feia. Eu estava armada, meu copo estava cheio e tinha nicotina a vontade. Soberana, eu exalava um ar sarcástico repleto de satisfação. Mas a vida havia voltado ao normal.

- Porra, tu pediu outro chopp? Vai virar alcoólatra! Ta com a vida ganha né? Amanhã tu não faz nada, eu acordo cedo. Nem sem trabalho tu pensa em economia? Vou cobrar você amanhã mesmo. Não sei como se criou até agora!

- Chiquinho leva essa cardápio. Ela não quer nada, traz a conta pra gente. E não precisa de saidera.

Tudo foi decidido e nada a mim foi perguntado. Pagamos a conta e saímos.

- Oh Gabi, tu ta no Rio sabia? Essa blusa é muito decotada, você não devia ficar andando por aí assim. Ainda mais a noite, pra ir à um barzinho. Se ainda fosse para uma festa fechada, tudo bem. Mas pra vir aqui, desnecessário! Não entendo isso. Qual objetivo de sair de casa com um decote desse?

Voltei em silêncio, rindo pra dentro e, como não podia deixar de ser, desprovida de grandes pensamentos. Dormi.

4 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Ha ha ha... tesão, o Happy Day e um determinado boteco meio Paulista x Brigadeiro só mudaram de endereço. Mas os personagens...nem tanto, nem tanto...rs
Puta crônica bacana.
Beijão de Sol no seu finde!

2:35 PM  
Anonymous Anônimo said...

Ótimo texto, cara. Parabéns, legal mesmo. Um dia você entra na mente masculina e nos entende...

12:22 PM  
Anonymous Anônimo said...

Eu não tenho decote, mas tenho meus truques. Esses homens são tão bestas...

12:51 PM  
Blogger Marina Morena Costa said...

hahahahahahaha!
Demais, Gábi!
Que delícia ler seus textos. Ri alto no trabalho.
Bjs!

11:08 AM  

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