História da dona Rita
Dona Rita é nascida e criada em uma pequena praia do litoral sul do Rio de Janeiro, da qual se tem acesso via barco ou trilha. Dona Rita tem no currículo 94 anos de praia do Sono, muito sol na cabeça e calos nas mãos; rugas que mostram o passado, mas não revelam sua idade; seis filhos e oito netos. Em sua casa são servidos deliciosos pratos acompanhados de uma cervejinha gelada. Um rústico camping foi montado em seu terreno. Bromélias, galinhas, cachorros nativos, gatos selvagens e árvores que abraçam com suas sombras, dividem espaço com algumas barracas.
Dona Rita tem amor pela vida, apesar dos dissabores que o destino lhe reservou. Com olheiras e olhar profundo, revela que acredita no primeiro e único amor. Se acha privilegiada por ter tido e, intensamente, vivido o seu. Embora sua história mão tenha o final feliz dos contos de fada.
- Aprendi com meu véio, que adorava viver, a gostar da vida mesmo quando ela tá cheia de problemas – revela.
Dona Rita conheceu seu Aristides ainda menina-moça.
- Mas não foi nada arranjado não, foi amor de verdade – garante sorrindo.
Casaram-se e tiveram seus filhos. Todos nascidos na praia do Sono. Augusto César, o mais velho, mora fora. Jorge administra o camping e o caçula Anísio é barqueiro do luxuoso condomínio das Laranjeiras. Osíris, o barqueiro, é cheio de histórias de pescador, sua isca já fisgou peixes maiores que a vã imaginação pode fabricar. Anísio já enfrentou mares que nem Hollywood saberia reproduzir. Duvida de Osíris? Se sim, o faça enfaticamente, de forma desafiadora. Anísio diz, Osíris prova. Afinal, Osíris ou Anísio, dona Rita?
- O nome dele é Osíris desde que minha regra não veio e eu tinha certeza que no lugar dela viria um menino. O parto foi complicado... Culpa daquela parteira! Então meu marido foi ao cartório sozinho e registrou o Osíris como Anísio. O povoado e todo resto da família chama ele de Anísio. Mas eu não. Para mim ele é meu filho Osíris, desde que minha regra atrasou...
Apesar da divergência em relação ao nome, dona Rita e seu Aristides sempre foram muito felizes. Tiveram “de namorico, mas sem beijo, noivado e casamento 59 anos”.
- Ia chegar até a sessenta, setenta e até oitenta, não fosse a tragédia.
Há 19 anos dona Rita não sai da praia do Sono. E se tem algum arrependimento na vida, é ter deixado a pátria amada, mesmo que a passeio. Acredita que pertencemos a terra que nascemos e que é nela que devemos morrer.
Augusto César pensava diferente. O primogênito, único a ir na contramão da vida nativa pregada pela mãe, resolveu ganhar o mundo.
- Já era macho criado. Queria que ele fosse não. Mas se vai, leva junto minha benção.
Augusto César casou-se com uma moça da cidade grande, morou em diversas capitais e, depois de muitas viagens, resolveu oficializar sua união com uma grande festa, na casa de veraneio do sogro, na praia de Guaratinguetá, litoral norte de São Paulo.
Os preparativos rolavam soltos no casarão, enquanto na praia do Sono a família festejava. Foi uma semana de peixadas e cachaças. As meninas experimentavam seus vestidos e punham-se a desfilar, seguidas pelas suas mães, que distribuíam broncas preocupadas com a roupa cara.
Todos iriam sábado pela manhã, dormiriam no casarão da festa e retornariam às suas vidas no domingo.
- Nunca gostei de sair daqui não, mas quando tinha alguma coisa eu ia. Ms pousar em casa de gente da cidade, aí não. Eu gosto é da minha vidinha aqui, da minha simplicidade, sabe?
Seu Aristide concordava com dona Rita e também não tinha planos de dormir fora de casa. Decidiram então que iriam de barco, assistiriam à cerimônia e voltariam logo após.
O céu estava claro e limpo, muitas estrelas e uma lua cheia iluminada testemunharam a grande festa. No gramado do casarão, o sim foi recíproco e as alianças foram trocadas.
Conforme combinado, o casal nativo da praia do Sono começou a levantar acampamento. Os pais de noiva interviram, a recém casada implorou por suas presenças no almoço dominical. Acabaram cedendo, mas com uma condição: “Pousaríamos no barco”
Já ancorados, dona Rita e seu Aristides conversavam. Ela falava sobre a passagem do tempo e o crescimento dos filhos. Ele contava como o mar estava mudado, se queixava de quão mal o homem fazia à natureza, de como os peixes estavam escassos...
- Ele olhou o céu, o mar e disse: "num falei que o homem só tem feito besteirada... Vê se pode mulher, o homem conseguiu enlouquecer o tempo! Amanhã vai ter mudança brusca, temos que partir logo cedo" - enquanto as lágrimas saltavam aos olhos de dona Rita, as palavras saiam vagarosamente.
Foram se deitar, se despediram com os lábios e dormiram.
Mas o amanhã do seu Aristides veio antes do raiar do sol. Durante a madrugada, um forte trovão o acordou. Ele se levantou, foi até o leme e confirmou sua previsão, embora tenha errado a hora em que se realizaria.
A chuva aumentava conforme o tempo passava. Até virar torrencial. Querendo fazer parte do cenário, o vento apareceu o passou a soprar incessantemente. O raio embelezava o céu. Os trovões assustavam até Netuno.
Já de pé ao lado do marido, dona Rita temia pelo pior. E ele não tardaria a chegar. Seu Aristides tentava, em vão, remover a água que alagava o barco com um pequeno balde. Mas a natureza estava no comando, e não se podia contra ela. Revoltado, o ventou aumentou. Tamanha força e intensidade faziam os pingos da chuva caíam doídos no ombro calejado do velho do mar. O barco virou. Seu Aristides sentiu como nunca o salgado da água. A temperatura era quente, como quando eram crianças e brincavam no raso debaixo da chuva de verão. Em meio à correnteza, se abraçaram.
Uma forte onda os separou, e o velho foi jogado para longe. Antes de se perder no oceano, ouviu o grito de sua amada. Num esforço sobre-humano nadou, remou, bateu pé, tentou de costas, lutou com o mar, seu antigo companheiro, como um bravo guerreiro. Aproximou-se de sua mulher, que já estava perdendo os sentidos. Fez com que os seus se alimentassem da sobrevida que lhe restava e funcionassem a todo vapor. Encheu seus pulmões cansados e mergulhou, tateou o barco virado que tão bem conhecia e voltou à superfície com uma corda.
Seu Aristides amarrou sua amada junto ao barco e se entregou.
No casarão, toda a família, que já tomara providências ao primeiro trovão, iniciava as buscas. Graças ao amor e à bravura de seu veio, dona Rita foi encontrada, junto ao braço virado, com vida. Seu Aristides nunca foi encontrado, nem roupas, nem corpo, nem pertences. O velho se incorporou àquele que o criou.
- Ele sempre foi filho do mar. Salvou minha vida... Ainda tentou se amarrar junto a mim, mas a natureza o levou. E ele, que tanto amava a vida, foi apresentado à morte.
Dona Rita tem amor pela vida, apesar dos dissabores que o destino lhe reservou. Com olheiras e olhar profundo, revela que acredita no primeiro e único amor. Se acha privilegiada por ter tido e, intensamente, vivido o seu. Embora sua história mão tenha o final feliz dos contos de fada.
- Aprendi com meu véio, que adorava viver, a gostar da vida mesmo quando ela tá cheia de problemas – revela.
Dona Rita conheceu seu Aristides ainda menina-moça.
- Mas não foi nada arranjado não, foi amor de verdade – garante sorrindo.
Casaram-se e tiveram seus filhos. Todos nascidos na praia do Sono. Augusto César, o mais velho, mora fora. Jorge administra o camping e o caçula Anísio é barqueiro do luxuoso condomínio das Laranjeiras. Osíris, o barqueiro, é cheio de histórias de pescador, sua isca já fisgou peixes maiores que a vã imaginação pode fabricar. Anísio já enfrentou mares que nem Hollywood saberia reproduzir. Duvida de Osíris? Se sim, o faça enfaticamente, de forma desafiadora. Anísio diz, Osíris prova. Afinal, Osíris ou Anísio, dona Rita?
- O nome dele é Osíris desde que minha regra não veio e eu tinha certeza que no lugar dela viria um menino. O parto foi complicado... Culpa daquela parteira! Então meu marido foi ao cartório sozinho e registrou o Osíris como Anísio. O povoado e todo resto da família chama ele de Anísio. Mas eu não. Para mim ele é meu filho Osíris, desde que minha regra atrasou...
Apesar da divergência em relação ao nome, dona Rita e seu Aristides sempre foram muito felizes. Tiveram “de namorico, mas sem beijo, noivado e casamento 59 anos”.
- Ia chegar até a sessenta, setenta e até oitenta, não fosse a tragédia.
Há 19 anos dona Rita não sai da praia do Sono. E se tem algum arrependimento na vida, é ter deixado a pátria amada, mesmo que a passeio. Acredita que pertencemos a terra que nascemos e que é nela que devemos morrer.
Augusto César pensava diferente. O primogênito, único a ir na contramão da vida nativa pregada pela mãe, resolveu ganhar o mundo.
- Já era macho criado. Queria que ele fosse não. Mas se vai, leva junto minha benção.
Augusto César casou-se com uma moça da cidade grande, morou em diversas capitais e, depois de muitas viagens, resolveu oficializar sua união com uma grande festa, na casa de veraneio do sogro, na praia de Guaratinguetá, litoral norte de São Paulo.
Os preparativos rolavam soltos no casarão, enquanto na praia do Sono a família festejava. Foi uma semana de peixadas e cachaças. As meninas experimentavam seus vestidos e punham-se a desfilar, seguidas pelas suas mães, que distribuíam broncas preocupadas com a roupa cara.
Todos iriam sábado pela manhã, dormiriam no casarão da festa e retornariam às suas vidas no domingo.
- Nunca gostei de sair daqui não, mas quando tinha alguma coisa eu ia. Ms pousar em casa de gente da cidade, aí não. Eu gosto é da minha vidinha aqui, da minha simplicidade, sabe?
Seu Aristide concordava com dona Rita e também não tinha planos de dormir fora de casa. Decidiram então que iriam de barco, assistiriam à cerimônia e voltariam logo após.
O céu estava claro e limpo, muitas estrelas e uma lua cheia iluminada testemunharam a grande festa. No gramado do casarão, o sim foi recíproco e as alianças foram trocadas.
Conforme combinado, o casal nativo da praia do Sono começou a levantar acampamento. Os pais de noiva interviram, a recém casada implorou por suas presenças no almoço dominical. Acabaram cedendo, mas com uma condição: “Pousaríamos no barco”
Já ancorados, dona Rita e seu Aristides conversavam. Ela falava sobre a passagem do tempo e o crescimento dos filhos. Ele contava como o mar estava mudado, se queixava de quão mal o homem fazia à natureza, de como os peixes estavam escassos...
- Ele olhou o céu, o mar e disse: "num falei que o homem só tem feito besteirada... Vê se pode mulher, o homem conseguiu enlouquecer o tempo! Amanhã vai ter mudança brusca, temos que partir logo cedo" - enquanto as lágrimas saltavam aos olhos de dona Rita, as palavras saiam vagarosamente.
Foram se deitar, se despediram com os lábios e dormiram.
Mas o amanhã do seu Aristides veio antes do raiar do sol. Durante a madrugada, um forte trovão o acordou. Ele se levantou, foi até o leme e confirmou sua previsão, embora tenha errado a hora em que se realizaria.
A chuva aumentava conforme o tempo passava. Até virar torrencial. Querendo fazer parte do cenário, o vento apareceu o passou a soprar incessantemente. O raio embelezava o céu. Os trovões assustavam até Netuno.
Já de pé ao lado do marido, dona Rita temia pelo pior. E ele não tardaria a chegar. Seu Aristides tentava, em vão, remover a água que alagava o barco com um pequeno balde. Mas a natureza estava no comando, e não se podia contra ela. Revoltado, o ventou aumentou. Tamanha força e intensidade faziam os pingos da chuva caíam doídos no ombro calejado do velho do mar. O barco virou. Seu Aristides sentiu como nunca o salgado da água. A temperatura era quente, como quando eram crianças e brincavam no raso debaixo da chuva de verão. Em meio à correnteza, se abraçaram.
Uma forte onda os separou, e o velho foi jogado para longe. Antes de se perder no oceano, ouviu o grito de sua amada. Num esforço sobre-humano nadou, remou, bateu pé, tentou de costas, lutou com o mar, seu antigo companheiro, como um bravo guerreiro. Aproximou-se de sua mulher, que já estava perdendo os sentidos. Fez com que os seus se alimentassem da sobrevida que lhe restava e funcionassem a todo vapor. Encheu seus pulmões cansados e mergulhou, tateou o barco virado que tão bem conhecia e voltou à superfície com uma corda.
Seu Aristides amarrou sua amada junto ao barco e se entregou.
No casarão, toda a família, que já tomara providências ao primeiro trovão, iniciava as buscas. Graças ao amor e à bravura de seu veio, dona Rita foi encontrada, junto ao braço virado, com vida. Seu Aristides nunca foi encontrado, nem roupas, nem corpo, nem pertences. O velho se incorporou àquele que o criou.
- Ele sempre foi filho do mar. Salvou minha vida... Ainda tentou se amarrar junto a mim, mas a natureza o levou. E ele, que tanto amava a vida, foi apresentado à morte.
