quinta-feira, setembro 28, 2006

Nos palcos da vida...


Preciso que saiba, amor,
Você viveu sozinho
Ajudei a criar,
Mas não participei
Fiz graça, fiz de conta
Camuflei
E você nem percebeu
Somente você viveu
Os sonhos
Os planos
A tua espera, esta foi verdadeira
Mas infundada
Eu já sabia que não ia dar em nada
E você nem percebeu
Não, não, meu querido
Culpada não me sinto
Sou peça deste teatro danado
Faço parte dos palcos da vida...
Ah, verdadeiras também foram as brigas
Mas as juras, meu anjo,
Nunca existiram
Você jurava, respondia e acreditava
Sozinho
E você nem percebeu
Sinto querido,
Mas este espetáculo, cansei de protagonizar
Mesmo sem participar
E você ainda sem perceber...

segunda-feira, setembro 25, 2006

Dificuldades Amorosas

No passeio de jangada, na Baía de Maracaípe, um casal de cavalos marinhos. Será que sofrem como nós?

DIFICULDADES AMOROSAS

Nesse momento escrevo para você, enquanto o avião me leva à Recife, finjo que a mesa do lanche é a escrivaninha do meu quarto. Às vezes páro e olho o céu, apesar de perto, parece estar ainda mais longe. Vejo estrelas que não sei onde estão e fico imaginando como se mostram a você. Procuro a lua, em vão, deve estar descansando após tamanha beleza e grandiosidade exibida no final de semana que estivemos juntos.

Inerte aos barulhos, longe do palpável, há milhas do chão, penso nessa força que nos aproxima e separa, atrai e repele. Tantas vezes achei que te amava, mais outras ainda te desgostei e em muitas vi nosso fim.

Mas, minhas suposições nunca funcionaram em se tratando de nós dois. Minha intuição então... Esta, sempre passou longe.

Curiosamente, olhei para o lado – em paralelo à carta – para refletir sobre a ineficiência do meu sexto sentido e me deparei com um livro aberto.

Um pernambucano, por volta de 50 anos, de óculos, jeans e camisa, o lê com atenção. Certas vezes sussurra algumas frases, como que para melhor assimilá-las. Em outros momentos percorre as linhas com o dedo, como que para não perder nem uma só sílaba, ou para acelerar a vista, que não acompanha o cérebro. Não consigo ver o nome do livro, mas o capítulo, escrito bem grande, acaba de ser anunciado. “Dificuldades Amorosas”.

Sim, este homem, de barba na cara e cabelo no peito, nordestino arretado, cabra da peste, sofre de amor e, aos 50 anos, busca na leitura uma explicação. Eu, metade da sua idade, o triplo do seu romantismo, mas talvez com tantos sonhos quanto, também passo horas tentando entender os porquês. Dos encontros, das despedidas, dos atos, das vindas. Assim como meu colega de vôo, quero razão em meio a tantas loucuras, todas provenientes do meu inquieto coração.

Mas, talvez o que procuramos não está nas páginas do livro ao lado, nem em meus pensamentos. Quem sabe o que queremos está aqui – agora com exatidão, depois de perguntar à aeromoça! – há 37 mil pés do solo, junto com a lua que descansa oculta, na estrela que vemos diferente, quem sabe no meio do céu, como partícula. As explicações devem ser vozes silenciadas, objetos não palpáveis, sensações não descritíveis.

E, de repente, é na ausência de motivos que está a graça, que nos liga e separa, conforme bem entende, ignorando as expectativas, atropelando o óbvio, sem aviso prévio.

Não, na verdade tudo isso é utópico, já que, mais uma vez, procurei um motivo e fiz da tua ausência a explicação. Não tem jeito não, estão sempre atrás de porquês, meus pensamentos e até meus devaneios...

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Falando neles, a comparação da mesa com a escrivaninha é infundada, já que meu quarto possui apenas cama, armário e criado mudo. Também, infelizmente, não páro olhar o céu. Além da janela fechada, estou desconfortavelmente na poltrona do meio. Mas penso em como você está vendo as estrelas, já que não as vejo de maneira alguma.

Sim, o homem ao meu lado corresponde à descrição e, de fato, lê um livro de auto-ajuda-amorosa. Enquanto escrevia, ele avançou o capítulo, depois das "Dificuldades Amorosas", a "Acomodação"!

Como você deve ter percebido, esqueci meus livros na estante e as revistas foram embora em alguma escala deste vôo que, segundo o piloto, "nasceu 12h30, em Foz do Iguaçu".

Continuando a tradução do que é real e o que minha mente produziu... Que te amo e te odeio, não nego. Mas, para dois jornalistas em tempo real, essa informação está mais caduca que o outro senhor ao meu lado. Falando nos companheiros de vôo, o vizinho do corredor chegou a uma nova etapa do livro. Não resisto... "Forças e Fraquezas"!

Que fique claro: não sou eu que escrevo devagar, os capítulos é que são curtos! Mas, por fim, busco - como o pernambucano ao lado - explicações e o farei sempre. Principalmente em relação à nossa... Essa nem Freud explica!

Aproveite o Rio... Enquanto eu curto Recife. "Vá entendê!"

OBS. Depois de posar para minha máquina, os cavalos voltam para água e seguem seu caminho





Na estrada


Às vezes me sinto em uma estrada… As luzes e a beleza do fim de tarde emulduram a paisagem. O sol se põe sem pressa, finge não saber das horas, ignora a chegada da noite e exibe seus raios vaidosos.

A primeira estrela não se intimida e aparece radiante, longe de ofuscar a luz do dia que chega ao fim, mas segura, também se impõe.

As nuvens ensaiam, mas diante do espetáculo, optam por não escondê-lo e aproveitam para admirá-lo como poesia enquanto descansam atrás da montanha. O verde está mais verde, o azul anil.

Eu sigo pela estrada, ampla e sem buracos. O asfalto corre liso, desliza, não mostra seu fim. Quer fazer parte disto, quem sabe tornar-se infinito e compor também o cenário ao longo da eterna estrada.

No meio das grandiosidades, caminho. Sou pessoa, sou verdade, mas parece que tenho dentro de mim um motor. Destes bem potentes, de Ferrari de F-1, mas sem aquele – desculpa meninos – incômodo barulho que nos desperta domingo de manhã.

Quem está responsável pelo som são os pássaros, que pulam de galho em galho, cantando avoados. O vento também dá o ar da graça. Quando o calor ameaça ultrapassar a tênue linha entre o prazer e seu oposto, ele dá no gosto e manda a brisa suave, que vem refrescar e jogar meus cabelos para trás.

A Ferrari que sou é turbo e possui combustível suficiente para testar o infinito. Sei de onde vim, mas não faço idéia de para onde estou indo. Caminho sentindo a brisa, o calor, seguindo meus instintos. Mas chega a hora da bendita arrancada. Finjo que não sei de nada e, vagarosamente, ando em passos distantes.

Os pássaros se acalmam, alarde já não mais fazem e silenciam meu trajeto. O sol se despede aos poucos, faz cerimônia, já consciente que é chegada a hora. E prova que é sensato e responsável. Muito mais que eu, que tenho o motor de Ferrari, o infinito à frente, mas em contrapartida minha mente que mente e camufla a hora de arrancar.

Ele se vai de vez, mas a estrada não fica abandonada, ganha a luz da bola, que não rola em gramados, mas passei no universo, muda de fase, tamanho e cor, mas que agora está cheia, impedindo que o escuro traga medo e oculte a paisagem.

Inerte à mudança está a brisa, que mostra independência, provando que falta a mim vivência e coragem, para cumprir com minha missão, partir para arrancada, parando de fingir que não sei de nada.

Sigo no asfalto e, mais uma vez analiso: tenho as possibilidades do infinito, ao meu redor o que há de mais bonito, dentro de mim um motor potente.

Mas permaneço na primeira, quando não, puxo o freio de mão. Admiro tudo à minha volta, mas opto pelo devaneio à realização.