
No passeio de jangada, na Baía de Maracaípe, um casal de cavalos marinhos. Será que sofrem como nós?
DIFICULDADES AMOROSAS
Nesse momento escrevo para você, enquanto o avião me leva à Recife, finjo que a mesa do lanche é a escrivaninha do meu quarto. Às vezes páro e olho o céu, apesar de perto, parece estar ainda mais longe. Vejo estrelas que não sei onde estão e fico imaginando como se mostram a você. Procuro a lua, em vão, deve estar descansando após tamanha beleza e grandiosidade exibida no final de semana que estivemos juntos.
Inerte aos barulhos, longe do palpável, há milhas do chão, penso nessa força que nos aproxima e separa, atrai e repele. Tantas vezes achei que te amava, mais outras ainda te desgostei e em muitas vi nosso fim.
Mas, minhas suposições nunca funcionaram em se tratando de nós dois. Minha intuição então... Esta, sempre passou longe.
Curiosamente, olhei para o lado – em paralelo à carta – para refletir sobre a ineficiência do meu sexto sentido e me deparei com um livro aberto.
Um pernambucano, por volta de 50 anos, de óculos, jeans e camisa, o lê com atenção. Certas vezes sussurra algumas frases, como que para melhor assimilá-las. Em outros momentos percorre as linhas com o dedo, como que para não perder nem uma só sílaba, ou para acelerar a vista, que não acompanha o cérebro. Não consigo ver o nome do livro, mas o capítulo, escrito bem grande, acaba de ser anunciado. “Dificuldades Amorosas”.
Sim, este homem, de barba na cara e cabelo no peito, nordestino arretado, cabra da peste, sofre de amor e, aos 50 anos, busca na leitura uma explicação. Eu, metade da sua idade, o triplo do seu romantismo, mas talvez com tantos sonhos quanto, também passo horas tentando entender os porquês. Dos encontros, das despedidas, dos atos, das vindas. Assim como meu colega de vôo, quero razão em meio a tantas loucuras, todas provenientes do meu inquieto coração.
Mas, talvez o que procuramos não está nas páginas do livro ao lado, nem em meus pensamentos. Quem sabe o que queremos está aqui – agora com exatidão, depois de perguntar à aeromoça! – há 37 mil pés do solo, junto com a lua que descansa oculta, na estrela que vemos diferente, quem sabe no meio do céu, como partícula. As explicações devem ser vozes silenciadas, objetos não palpáveis, sensações não descritíveis.
E, de repente, é na ausência de motivos que está a graça, que nos liga e separa, conforme bem entende, ignorando as expectativas, atropelando o óbvio, sem aviso prévio.
Não, na verdade tudo isso é utópico, já que, mais uma vez, procurei um motivo e fiz da tua ausência a explicação. Não tem jeito não, estão sempre atrás de porquês, meus pensamentos e até meus devaneios...
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Falando neles, a comparação da mesa com a escrivaninha é infundada, já que meu quarto possui apenas cama, armário e criado mudo. Também, infelizmente, não páro olhar o céu. Além da janela fechada, estou desconfortavelmente na poltrona do meio. Mas penso em como você está vendo as estrelas, já que não as vejo de maneira alguma.
Sim, o homem ao meu lado corresponde à descrição e, de fato, lê um livro de auto-ajuda-amorosa. Enquanto escrevia, ele avançou o capítulo, depois das "Dificuldades Amorosas", a "Acomodação"!
Como você deve ter percebido, esqueci meus livros na estante e as revistas foram embora em alguma escala deste vôo que, segundo o piloto, "nasceu 12h30, em Foz do Iguaçu".
Continuando a tradução do que é real e o que minha mente produziu... Que te amo e te odeio, não nego. Mas, para dois jornalistas em tempo real, essa informação está mais caduca que o outro senhor ao meu lado. Falando nos companheiros de vôo, o vizinho do corredor chegou a uma nova etapa do livro. Não resisto... "Forças e Fraquezas"!
Que fique claro: não sou eu que escrevo devagar, os capítulos é que são curtos! Mas, por fim, busco - como o pernambucano ao lado - explicações e o farei sempre. Principalmente em relação à nossa... Essa nem Freud explica!
Aproveite o Rio... Enquanto eu curto Recife. "Vá entendê!"
OBS. Depois de posar para minha máquina, os cavalos voltam para água e seguem seu caminho